26 de junho de 2010

Gatos

Ele deve pensar, por que ela passa tanto tempo em frente a esse retângulo luminoso? Ele me olha como se implorasse por vida. Ele está aqui, vivendo intensamente, tanto que cada pedaço de corda é como um parque de diversões, os papeis viram seus melhores amigos, qualquer movimento traz energia. Eu tenho inveja disso.
Eu devo pensar, por que ele consegue ser assim tão leve enquanto eu busco entreter-me com luzes cores e letras? Ele não precisa de cores, nem letras. Seu tempo é irrelevante. Eu concluo que não fui eu quem decidiu buscá-lo na casa de uns amigos, foi ele que decidiu me encantar com seu carinho por seres humanos.
Eu devo me perguntar, por que quando fixo em seus olhos ainda sinto mais forte esse surreal? Dos braços até as pernas me transporto com um pensamento. Tenho cinquenta e cinco quilos, e só preciso de pensamento pra me mover, e só preciso de vontade pra fazer minha matéria estática ser transiente.

O mais simples exemplo do encontro entre o abstrato e o concreto.

Ele é concreto e abstrato, posso ousar dizer, mais concreto do que abstrato.
Eu sou mais abstrata do que concreta, muitas vezes me esqueço do ser concreto.
Ele está aqui do meu lado me mostrando um outro caminho, um outro sentido, uma nova perspectiva.

E eu aqui me preocupando em concretizar minhas abstrações, pra me reafirmar através dessa tela.
Enquanto ele me concretiza todo um mundo.
Sem cores e nem ao menos uma palavra.

6 de junho de 2010

Somos assim, um constante de ultrapassagens e rotas perigosas. Essa poesia-música, como muitas outras, vem fechar um ciclo.
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Ser Humano


Confesso agora ter que falar
como se fosse uma solução pr'os meus anseios
Embora eu não consiga mais querer
Te vejo numa Humanidade
Um castigo para um crime que não desvendei

Essa força-mútua me constrói
Driblando um velho indício que me dói
Te vejo Humanidade imensa
Aquele vício virou uma lenda

Confesso ter que insistir
Em dizer que não o vejo como antes
Eu venho pra sorrir e te dizer
“Eu sei ultrapassar limites
Logo vou chegar tão alto quanto você.”

O tempo me mostrou

pra cada tempo existe um estado
um desejo, uma força, um motivo pra ficar acordado
existe um mundo pra criar, transferência de dados
A cada dia cada passo

Essa Humanidade Absurda
Habita-te
Habita-me
Se tornou um motivo pra sonhar e dizer:
“Eu posso superar etapas.
Logo vou ser tão concreta quanto você.”

Ser e ser: ser Humano.

16 de maio de 2010

Nova Família

Quando eu percebo que os amigos novos já viraram amigos antigos
E quando me encontro completamente à vontade em lugares como este
A toda volta alguém que conheci, se não conheci logo conhecerei
E se não conhecer sei que você é amigo de um amigo
Como uma tia do primo, que já chamo de tia

E quando eu percebo que posso sair por aí
Olhando amplo para o aflorar da Arte
Eu vou fitar a cantora, a atriz, o músico
Eu direi: “Ele é da minha família!”
Quando o show acabar
Trocaremos idéias, figurinhas, histórias
Cultura

Quando eu percebo que a essência da minha vida
Se encontra na vida de outros
eu re-afirmo, re-concluo,
Essa família há de crescer!
Um dia seremos só um!
Como um grande nó cego!
Algo que ninguém desfaz!
Nem mesmo um grande ego.

15 de maio de 2010

Como se suporta o cheiro?

Fico feliz em perceber o quanto as coisas podem ser dinâmicas, e quanto tudo me parece cada vez mais co-nectado, conecta-do, conec-tado. Isso poderia me gerar uma outra postagem, mas vamos parar por aqui e descobrir o que eu encontrei em cadernos do ano passado. Palavras que flutuavam a espera de alguns leitores e de algumas conclusões.

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Ela podia reproduzir o cheiro com seu próprio nariz, como se ainda pudesse estar lá. Era o calor e o suor que ocupavam aquele quarto escuro. Ela não tinha uma boa lembrança, na verdade, só lembrava o cheiro e nada mais. Por que estivera ali, ou quem suava, não eram perguntas com claras respostas.
Mesmo assim ela ia, ia. Aquele cheiro voltava em muito momentos para preencher o vazio ou sufocar o acúmulo. O excesso.
O cheiro começou a fazer parte de seu dia a dia, quando se sentia triste, lá estava ele. Quando se sentia feliz pudera ela seti-lo ao fundo, como uma canção sem notas, porém, sensações. A canção que só ela ouvia.
Encantada com a possibilidade de espalhar essa experiência, ela começou a espalhar pelos sete mares o que lhe passava. Quem sabe alguém pudesse ajudá-la a entender. Muitas pessoas, adimiradas, começaram a buscar esse tal fenômeno em suas vidas. Eles queria essa nova dimensão como lamentar com cheiro de ketchup! Beijar com cheiro de álcool! O caso virou tendência, moda. E todos passaram a ganhar cheiros em suas vidas, para cada momento um cheiro sem razão.

Quando, enfim, eles entenderam.

O cheiro é o rastro que eu deixo quando não entendo.
Quando o grito aumenta até arranhar a minha garganta
Quando não consigo mais pensar em nada.
O cheiro é a parte de mim que não quer ir embora
E implora pra eu, por favor, voltar para mim mesma
Se eu não quiser, que pelo menos eu seja forte o suficiente pra gritar e dizer:
"SAI!!"

Depois que descobriram, perceberam que o cheiro era um pedaço apodrecido de seu próprio corpo, ou o perfume que sem perceber usamos todos os dias. Esse cheiro, é o vício que querer encontrar no que é novo aquilo ao que já estamos acostumados a interpretar.
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9 de abril de 2010

Parque das Imagens



Quero que suas roupas me devorem
Quero que entenda
o que eu tenho pra falar
Então por que será que ela corre?

Bicicleta, pedalar seu rosto vai
Bicicleta, pedalar seu rosto vai

E aí, a musa mais bela vem
Sorrir pr'aquele que nada tem
Detonando a força que resta
Retomando a dor que infesta
Fome feia e dura a fez
Louca

Imagem a vagar neste deserto
Os pássaros sustentam seu penar
Por mais que não entenda
O seu mundo eu vou mostrar
O seu resignar é o que me move

Bicicleta, pedalar meu rosto vai
Bicicleta, pedalar meu rosto vai

E aí, a musa mais bela vem
Sorrir pr'aquele que nada tem
Detonando a força que resta
Retomando a dor que infesta
Fome feia e dura a fez
Louca

(música resultante do Post: Princesa da Grama)

5 de abril de 2010

NovoCanto

Ler coisas que eu mesma escrevi
Ler tudo aquilo que muito senti
Ler todo o vão que se alimenta em mim
Entender o mundo que se fez assim:

Ouvir da vida que me fez feliz
Gritar pra fora o que matou de rir
Fugir do agora pra encontrar a mim
Amar o tempo pra sonhar com fé
Seguir a vida mesmo sendo a pé
Focar no medo até ele ir pra longe
Pensar na vida, isso me faz distante.

Eu busco mesmo encontrar o caminho
Fio da meada que me traga o linho
Pra costurar até formar um blues
E espantar o amor que não tem luz
Um velho canto sem medo propus:

Viver e ler aquilo que escrevi
Tentar aquilo que eu não escolhi
Olhar pros lados escolher o ponto
O meu desconto é ser um novo canto
Ou tudo aquilo que eu nunca fui.

1 de abril de 2010

Vai deixando na gente...

É justamente o que o resquício do tempo vai deixando na gente, é justamente o que o mundo deixa sobre o nosso mundo de possibilidade. É a vida te avisando que falta alguma coisa pra ela ser mais bem vivida, bem amada, querida.
E a rotina vai te mostrando, cada vez mais, ser inútil lutar contra ela, porque a disciplina, essa sim é capaz de trazer o fruto do seu esforço vir a tona. E como tornar esse fruto comestível, saboroso, se a rotina usada para trazê-lo é insípida disforme, desconexa.
Por que toda vez que eu penso ter encontrado a saída me vejo saindo de uma porta que dá para outro labirinto? É como se precisássemos de muitos labirintos até encontrar a tal da maturidade, ou aquele momento em que as pessoas mais velhas te vêem como um adulto, e não mais como um garotinho.
É justamente o que o resquício do tempo vai deixando na gente. Um mar, ondas que te arrastam, tiram um pouco do seu humor, o leva para longe. É justamente o que a juventude deixa dentro dos olhos de uma criança. A alegria de ser jovem somada a dúvida do que está por vir. A esperança de que o mundo está em rumo ao equilíbrio, o desespero de não saber o que fazer para ajudar.
É justamente o que o resquício do tempo vai deixando na gente. O medo de tornar-se algo tão mais diferente, a ponto de não haver mais nenhuma esperança. Ou até, talvez, mais nada.