9 de janeiro de 2012

Por esse incessante circular em torno de um ponto imaginário,

uma legião de leis de forças e estados a manter a tensão de tudo.

Apenas com a noção do que é isso, poderíamos sussurrar carinhos descontextualizados.

Vai que um dia as constantes gravitacionais resolvem ter vida própria e a

Terra desgovernada viajará o universo inteiro.

Cadê essa coisa que desfaz o que anda sendo repetido há milênios ??

Há cordas prendendo os planetas e é preciso cortá-las com nossas tecnológicas vontades.

E se parássemos de girar, o tempo continuaria? Ou tudo gira porque o tempo existe?

É circular é convicto é suplício geológico que perdura desde

a criação de uma malha de espaço e tempo.

A gente toda aqui dentro, intranquila, achando que consegue dar conta.

A gente toda existindo aqui nesse redondo e repetitivo invento.

Momento de achar o eixo.

Inverter as cabeças, as certezas. Hora de expandir as percepções

e apontar para a direção errada.

Já que a Terra não muda a rota, a gente se vira.

A gente se mata

4 de dezembro de 2011

Ansiedade

Gostava de segurar nos próprios cabelos
e de falar alto como se nada no mundo pudesse ouvi-la
Compartilhava a ansiedade de que um novo dia nasceria e de que a noite clarearia o mais rápido possível Sentia um enorme medo de perder os amigos por conta dos seus erros efêmeros e desmedidos
Amava as cores que tomavam intensidade a medida que o sol nascia
Tinha medo de escrever e parecer muito consigo mesma Tinha dó das pessoas que não encontravam um lugar confortável na vida Queria ajudar os amigos e ser livre nos continentes e nos transportes Queria finalizar o que andava escorrendo pela impaciência das conclusões humanas Achava que era menos humana porque se sentia culpada e não entendia o motivo
Queria um banho de mar um banho de mangueira
um banho de rio uma cascata caindo sobre sua cabeça
Era incolor para a maioria dos transeuntes Era implícita Irritantemente introspectiva Adorava sorri quando não sabia como agir Tagarelava no ouvido de quem mais amava pra poder aliviar as tensões internas E quando menos percebia sentia estar encontrando os mesmos erros e os mesmos atos Como se nada mudasse Como se nada implorasse pelo novo Como se tudo fosse repetitivo propositadamente
E era tudo de propósito mesmo
As árvores caiam mais rápidos propositalmente As pombas se reproduziam mais rápido propositalmente Os rios iam ficando sujos propositalmente Os cabelos embolavam de propósito só pra doer mais na hora de pentear E os dedos tremiam quando ela olhava pro espelho e o pente agarrava ainda a poucos centímetros da cabeça Os olhos enchiam de lágrimas e ela fingia não estar percebendo isso continuava puxando como se não houvesse direção mais certa do que o solo Arrancou todos os fios com o próprio pente sem diminuir a velocidade sem piscar os olhos
E a pia enchia de dores de medos de desejos
de vontades de corridas pneumáticas de apnéias chinesas e coreanas havia também um pouco dos pistaches do Irã e uma dúzia de mulheres e suas burcas Dentro da pia de onde se via algum antídoto escorrer dos olhos era madrugada era raciocínio tático - O que deixar de fazer para não perder o que se deve fazer de verdade ?

21 de novembro de 2011

Limpa

Concordo
As palavras andam escorregadias
passaram sabonete na intenção
de limpar as línguas.
Para que o povo se acostumasse
ao gosto azedo do detergente
Para uma limpeza urgente
Eles tentam disfarçar a cara
das nossas necessidades,
passam álcool em cada quina,
no vale das letras deixaram
acumular um pouco de desinfetante.

E a gente toda se engasga,

pouco a pouco,
a voz maior se estraga.

16 de novembro de 2011

o menino

Barulho, caos, orgulho
É tanto murmúrio, e ele nem espanta
É tanta euforia em volta e ele canta e canta
A moçada achou que ele tocava lento
no laço dos corpos ele acalmou sussurrou
nas cordas, num toque que culminou
no fim dos tempos.
Era um bando de jovens
aturdidos pelo moço-dinheiro
que mandava em tudo,
eles cantavam com o garoto
mas eram um pouco surdos.

O barulho todo se reverteu pra fora
quando cantaram através da memória.
As palavras misturadas que ele oferecia
Ele não sofria (mas eu sofri tanto)
Ele não sofria, ele só fazia cada nota
como quem assopra pra dentro de si
abrindo as portas que existiam
na conciência das cervejas de garrafa
no pensamento das vodkas do bar
na gentileza das cachaças sensatas.

Ele só queria rir pra praça
Adimirar a chuva, a noite, as garças.


(eu sofria tanto)

para o menino cícero.



14 de novembro de 2011

É pelo Grito

Pelo grito, derrubo alguns dilemas sobre o chão e abraço a causa de inúmeras nações. Opto por ver o riso dinamite das crianças enquanto cantam, ao invés dos títulos, dos apegos materiais e do ócio entorpecente das festa. Por esse grito que choro horrores ao ver o bem-te-vi no parapeito da minha janela, porque não é todo dia que ele resolve repousar ali, e não é todo dia que estou ali olhando pra fora. Repito, re-escrevo e amasso as folhas virtuais de letras que só piscam na tela pela eletrônica dos leds e cristais líquidos da tecnologia. É pelo grito que eu gemia ao ver a tua mão tocar a minha pele sem que houvesse amor antes do beijo. É no grito que o desejo é carne. E que a fúria é sangue. É na adrenalina que sobe e anestesia as preocupações e as dores do corpo. Porque é com o grito que ouço mais, e tateio mais, e as cores supersaturam na retina dos acontecimentos. É por ele que as idéias adormecem no assoalho da alma, a espera do momento inusitado e fértil de realizar os inúmeros planos.

5 de novembro de 2011

Chuviscos



A chuva.
Que tanto que é suspensa,
e úmida sob nossas narinas,
tanto que é ar e que agita
cogita e logo logo apita.
A chuva é mágoa de ar,
fazendo pirraça até virar nuvem.
E logo cansa de ficar pra lá e pra cá
até gritar pelo além, caindo sobre um mar
de possibilidades.
Árvores
cabeças
desigualdades
A chuva cai pra todo mundo.
A chuva é dessas que não escolhe o alvo,
só acerta e molha sendo fina, grossa ou algo
que só torna os egos um pouco mais calmos.


10 de setembro de 2011

se debatendo

Dormir pouco, catar o ânimo perdido lá no sonho inofensivo. Abrir os olhos, calar os impulsos e as depressões, deslizar sobre as maçãs do rosto para enfeitiçar a vida, convencendo-a de nossa necessidade súbita de cumprir certos horários, muitos afazeres. O relógio aguça a vontade que temos de lançar o alarme do despertador para o alto, e fazer dele nossa voz. A voz surda que esquece dos outros e só lembra das próprias necessidades. O grito rouco que acelera o coração dos mendigos depois que bebem e sorriem. Realmente Felizes! Realmente risonhos. O que a escória quer é entorpecentes. O que as crianças mortas querem é leite, água branca e concreta que a mãe não consegue produzir. Talvez, nossa verdadeira necessidade seja que todos os seres humanos fossem nós mesmos, triplicados, quadruplicados, infinitetizados talvez. Para que não houvesse motivos e explicações para se debater. E assim seríamos exércitos padronizados, desfilando pelas terras. Matando quem diverge, quem se empolga demais e quem definha muito. E é isso o que acontece, são muito poucos os que se parecem e se unem. Não há lugar para os muitos, e os poucos que ocupam tudo não sobreviveriam sem os muitos que se espremem nos quartinhos úmidos. Pra que ocupar tanto espaço, por que nunca é suficiente. Sinceramente, ainda vomito alguns pedaços de nojo. Nojo de tudo. Embora na maioria das vezes algum dejeto amarelo do exôfago olhe pra mim e sorrindo diz que é hora de desembarcar de si, e agir pro lado de fora.