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23 de maio de 2011

Comunicações

As instalações de arame não se puseram sobre o gramado de propósito, e os lenços que se materializavam a medida que a luz saía da lâmpada também não eram por acaso. Ali o tempo era mais lento porque não se via tudo no mesmo instante que acontecia, levava dois ou três minutos para eu poder ver seus gestos e vice versa. Desta forma, ou agíamos muito lentamente, ou nos apressávamos em dizer ao máximo tudo, sem nunca nos entender de fato. Como num relance inútil que o acaso lhe profere. E não é permitido gemer, reclamar ou enraivecer. Eu me esquivei das tuas mensagens, parti em direção a instalação, você não pôde ver o momento, mas eu senti exatamente a tomada de decisão partir de dentro do estômago e cair sobre as bordas da minha bacia. Macia era o que eu era. Sem ninguém em mim, estipulei que caminhos poderia percorrer por dentro, e pelo fêmur me subia um vento cortante. Pé ante pé. Corro porque corro. Os arames não se contorciam mas os véus inundam a minha vista agora embaçada. Tomada pelas cores de pele, como se todas as pessoas do mundo tivessem raspado suas peles e doado para mim. Dentro da ópera de arame, não era possível nem sentir fome, os músculos relaxaram todos sem hesitar, e as pernas flutuavam nítidas sob o meu pescoço, não se fazia qualquer esforço, somente a sensação plena de não necessitar de ti. E não ter ninguém em mim.

23 de abril de 2011

Equilíbrio

Delícia de fome, me conformo com os pedaços de comida, água e saliva. A boca digere, o esôfago digere, digere o estômago, enquanto meus pensamentos passeiam pelos arcos da lapa até a ponta mais sutil do Arpoador. Ali é onde o sol se empenha em brilhar e a terra em girar pela inércia gigante desse sistema. Comportada pelos deveres, no entanto vejo a busca latente cada vez mais eminente e viva, e os resultados piscam pela tela dos acontecimentos. Primeiro uma foto, depois, um beijo, um desejo, os líquidos ainda borbulham sob o externo e meus olhos arregalam. Açúcar, sal, cafeína, glicose, hormônio, agrotóxico. Fossa dos desejos a me alimentar, combustível dos triglicerídeos, desconserto natural. Assim que arregalo, os músculos atiçados querem esticar contorcer desintegrar sobre a ação de seus próprios ácidos. Dor. Remédio. Retorno a ponta da cama, e sentada escrevo, não mais reflito sobre o dia, sobre o que deixei de fazer, presumo o sentimento que ainda não me acendeu no bulbo do cérebro. Descanso pelo ócio que tanto me quer alçar. Inércia dos cabelos oleosos e quebradiços. No caco mais ligeiro de mim, me varro para chegar na pá da consciência, olho pra sua carinha de noiva e a beijo na testa. De novo um barulho do corpo um grito no ínfimo do físico mudo e ativo. Vomitei. Estou viva. Pronto, saiu. Agora sim. Volto para a corda bamba do tempo, e equilibro.

12 de janeiro de 2011

A menina Equilibrista

Estive pensando em desatar os rumos, como se o universo conspirasse para que algo acontecesse em determinado momento só porque ele quer, o universo. Então você brinca de ser, um universo, e distorce as coisas, como uma grande massa gravitacional desviando o caminho da luz. Uma fusão de galáxias que você pode moldar, controlar pelo after effects a progressão das imagens. Tornar viável os fluxos que passam por dentro até virar um grande pensamento controlado pelos seus pensamentos. Pode ser coisas que vem por causa deste momento, onde me sinto capaz de moldar as coisas, como por exemplo, o tempo.


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Há uma linha infinita, riscada a cada segundo por um ser de um mundo profundo. Em cada risco, ele anota o que acontece, breves descrições das sensações que passam pelo seu corpo, e logo, os segundos os dias se passam, esse breve senhor, se vê na desgraça de anotar sem cessar as lembranças das sensações vividas por uma moça, uma mocinha, pequena, baixinha, doidinha para ser alcançada no meio de um desencontro. Ela lê contos, ela chora com os filmes, ela transparece ser firme, e ao mesmo tempo estranha. É que a garganta da moça arranha toda vez que fala de coisas que passam pela sua alma, então ela decidiu ser calma e procurar um senhor que anotasse, anotasse tudo que passasse por baixo das roupas da moça. Brevemente as frases dele deixaram de ser discretas, para se tornarem contínuas como um livro que se escreve a medida que se passa a vida. Às vezes era prosa, às vezes era verso, uma simples conversa que desatasse um universo. Mas como ele era capaz de entender a moça, ia fluindo pelas nuânces de seus olhos ia querendo distinguir os atos falhos, e os válidos. E a moça foi, desde os 16 anos, tendo quem escrevesse seu livro e desvendasse seus planos. Caçou pelos mares das dores, as cores de um futuro promissor, e revelou ser garota encantada quando se falava das dores de amor. O senhor que muito muito escrevia entendia que podia florear aqueles sentimentos, mas não havia o que aumentar pois o que acontecia era forte por si só. Era tudo como um nó apertado, não dá pra ser afrouxado, nem cortado. O que acontecia não podia ser fantasiado. Seus dedos cansavam suavam com o lápis, a caneta, a pena de pavão que arranjara enquanto escrevia perto da casa de um outro ancião. Enquanto escrevia e conversava uma conversa afiada, encontrou no destino do outro seu próprio destino, que deixara correr em vão pela simples missão de ter que transcrever a garota de forte coração. Sentiu-se triste mas não podia sentir a si. Sentiu o vazio de ser amplamente preenchido por outro moinho. O moinho da menina amada que vivia floreada por si mesma. Quando encontrava um grande amor, logo seus pés deslizavam pela perna, logo suas canelas atiçavam de ansiedade: queria correr sobre o tempo! Sim! O tempo da linha onde o senhor escrevia! A menina, quando amava, sentia que andava sobre uma linha equilibrada, justa sob os seus pés, mas ela não ligava, queria mesmo seguir pra frente, ver onde aquilo ia dar, queria acelerar as coisas. A medida que o velho a transcrevia, percebia que os segundos muitas vezes passavam mais rápido, percebia que os músculos dos dedos não eram mais flácidos eram ágeis, imutáveis, tensos e leves pelo seu papel de elevar palavras ao céu. Um dia desses, era muito quente pelo Rio de Janeiro, como se desaguasse o mundo inteiro pelos poros da pele, até podia derreter como neve. A garota de vestido sabia que a qualquer momento poderia cair da linha, pois os amores andavam fracos, tristonhos até mesmo medonhos. Andava equilibrada, mas com muito medo, carregava na mão dois pesos de chumbo, às vezes gritava para sentir o bumbo do seu próprio coração. “Você está aí?”, gritava, e o velho não respondia, pois só o que conseguia era escrever o momento tão rico em argumentos, desalentos, descontentamentos, ventos. Os dedos se movimentavam quase na velocidade da luz, começava a aquecer, a iluminar, a gerar uma radiação amarela que nunca se pode copiar, mas ele escrevia atônito. Não queria parar. Preferia continuar. Era como goz... gostava muito disso tudo! Ângela caiu da linha, havia uma rede bem logo embaixo, rede de segurança, aquela que se faz quando se põe uma aliança. Ângela caiu balançou e sorriu. Aplaudiu o velho cansado que agora pela primeira vez descansava e gritava “É o fim do meu primeiro livro!” Ela caiu de alivio. Ela sussurrou se tinha feito tudo certinho. E ele a pegou pelos braços acanhado. Percebeu seus músculos do rosto que tanto havia reparado, agora poderia olhar sem anotar, só brilhar por dentro do olhos de velho escritor que nascia com quase noventa anos. A menina agora corria por outros planos, buscava outros velhos, outras dores de amor, ou quem sabe escrevê-las por si só. Seu Antônio percebeu ter alcançado seus objetivos, mas que agora tudo fazia mais sentido e talvez fosse a grande hora de voltar a florear suas dores e morrer. Morrer de amores.

1 de abril de 2010

Vai deixando na gente...

É justamente o que o resquício do tempo vai deixando na gente, é justamente o que o mundo deixa sobre o nosso mundo de possibilidade. É a vida te avisando que falta alguma coisa pra ela ser mais bem vivida, bem amada, querida.
E a rotina vai te mostrando, cada vez mais, ser inútil lutar contra ela, porque a disciplina, essa sim é capaz de trazer o fruto do seu esforço vir a tona. E como tornar esse fruto comestível, saboroso, se a rotina usada para trazê-lo é insípida disforme, desconexa.
Por que toda vez que eu penso ter encontrado a saída me vejo saindo de uma porta que dá para outro labirinto? É como se precisássemos de muitos labirintos até encontrar a tal da maturidade, ou aquele momento em que as pessoas mais velhas te vêem como um adulto, e não mais como um garotinho.
É justamente o que o resquício do tempo vai deixando na gente. Um mar, ondas que te arrastam, tiram um pouco do seu humor, o leva para longe. É justamente o que a juventude deixa dentro dos olhos de uma criança. A alegria de ser jovem somada a dúvida do que está por vir. A esperança de que o mundo está em rumo ao equilíbrio, o desespero de não saber o que fazer para ajudar.
É justamente o que o resquício do tempo vai deixando na gente. O medo de tornar-se algo tão mais diferente, a ponto de não haver mais nenhuma esperança. Ou até, talvez, mais nada.