5 de novembro de 2011

Chuviscos



A chuva.
Que tanto que é suspensa,
e úmida sob nossas narinas,
tanto que é ar e que agita
cogita e logo logo apita.
A chuva é mágoa de ar,
fazendo pirraça até virar nuvem.
E logo cansa de ficar pra lá e pra cá
até gritar pelo além, caindo sobre um mar
de possibilidades.
Árvores
cabeças
desigualdades
A chuva cai pra todo mundo.
A chuva é dessas que não escolhe o alvo,
só acerta e molha sendo fina, grossa ou algo
que só torna os egos um pouco mais calmos.


10 de setembro de 2011

se debatendo

Dormir pouco, catar o ânimo perdido lá no sonho inofensivo. Abrir os olhos, calar os impulsos e as depressões, deslizar sobre as maçãs do rosto para enfeitiçar a vida, convencendo-a de nossa necessidade súbita de cumprir certos horários, muitos afazeres. O relógio aguça a vontade que temos de lançar o alarme do despertador para o alto, e fazer dele nossa voz. A voz surda que esquece dos outros e só lembra das próprias necessidades. O grito rouco que acelera o coração dos mendigos depois que bebem e sorriem. Realmente Felizes! Realmente risonhos. O que a escória quer é entorpecentes. O que as crianças mortas querem é leite, água branca e concreta que a mãe não consegue produzir. Talvez, nossa verdadeira necessidade seja que todos os seres humanos fossem nós mesmos, triplicados, quadruplicados, infinitetizados talvez. Para que não houvesse motivos e explicações para se debater. E assim seríamos exércitos padronizados, desfilando pelas terras. Matando quem diverge, quem se empolga demais e quem definha muito. E é isso o que acontece, são muito poucos os que se parecem e se unem. Não há lugar para os muitos, e os poucos que ocupam tudo não sobreviveriam sem os muitos que se espremem nos quartinhos úmidos. Pra que ocupar tanto espaço, por que nunca é suficiente. Sinceramente, ainda vomito alguns pedaços de nojo. Nojo de tudo. Embora na maioria das vezes algum dejeto amarelo do exôfago olhe pra mim e sorrindo diz que é hora de desembarcar de si, e agir pro lado de fora.

3 de julho de 2011

Pelados

As linhas de todas as calças descosturaram, estão todos nus. Mostram em pele e em cor suas partes feias e desconfiguradas. Revelam seus desejos omitidos pelo pano púdico das roupas. Os padres logo abraçam as freiras, e as freiras umidecem rapidamente e beijam loucamente os padres. As viúvas de luto longíncuo pularam para as casa de seus respectivos vizinhos gordos e ociosamente imprestáveis, que logo as abraçaram fervorosos. Nos supermecados as mulheres lambusam-se de ketchup enquanto os homens jogam as carnes de boi pelo corredor e saltam sobre ela. Espirra sangue da carne enquanto eles vibram. Todos os adultos urram! Todos eles urram, eles correm, se destrambelham numa impolgação ilimitada. As crianças, na ausência de seus pais, brincam. Sua nudez pouco lhes importa. As brincadeiras só ficaram mais livres e duradouras, e noite eles dormem na praia todos sujos de terra. O dia seguinte é longo, a fome é trapaceada com algumas buscas na geladeira. A casa está uma bagunça, mas eles gargalham enormes, gigantes. Dois dias se passam. Todos os adultos morreram. As crianças crescem, aprendem o mundo sem repressões sexuais, sem desejos impedidos, às vezes alguns problemas, mas de qualquer forma a sociedade renasce. E só foi preciso abaixar as calças.


12 de junho de 2011

é pelo descaminho

Já não me preenche mais o caminhar vermelho das esquinas, as chuva fina é vazia... e as horas perdidas de sono não passam de um escorrer resmungado. Daqui do terceiro andar, vejo o lixo que eles jogam na rua acumular nas bocas dos bueiros, a água não desce, e a rua fica tão alagada como meu próprio cansaço. E aí... depois que os olhos pesam e o sono vem, os sonhos me mostram um além invisível ao olhar dos acordados. Um paralelo que se faz toda vez que alguém sonha, ou que alguém viaja nas imagens de suas fantasias. A lona cobre meus últimos pensamentos, mas meus pensamentos antigos já ficaram expostos ao Sol há muito tempo, estão tão quebradiços quanto os meus cabelos, e não controlo muito bem o fluxo das palavras quanto antes. Talvez melhor cair na armadilha dessa over-sinceridade, e destrambelhar antes que um onda arraste tudo, ou que a próxima enchente alcance os pés da minha cama.

O sentir que falta mais é o que me espanta, porque ao longo desse caminho as linhas do mapa embaçam e já não é mais permitido estar perdido. Os adultos precisam sempre saber pra onde estão indo, não é mesmo? E assim, se fingindo saber do futuro. Como videntes de nós mesmos. Vamos cultivando essa escuridão interna, sem se dar conta, que o buraco que cavamos para esconder a cabeça, já nos leva ao centro da Terra.

6 de junho de 2011

Rastrear

Me persigo sobre o balançar ligeiro da estrada, não consigo desacelerar a depressão que se instala. Meu ego cava a decoração que havia pelo interior, retira os brincos, as luvas, o salto, surra as calças, e mais do que tudo, me convence de esquecer as profundezas criativas do meu ser. Todavia, a medida que a hora passa, e não mais se enxergam os argumentos, no corpo circula sangue, o olhar se abre na única tarefa de estar, ali, inteiro, e mais nada. Ao circular dos excrementos expelidos pela alma lúcida e despretensiosa. Afogo-me no cálcio ingênuo, vou polir novamente o que arranhou nas asperezas da surra. Entro nas sub-rotinas da informação até exalar o cheiro que tem o chão pisado do centro da cidade. Excentricidade das nossas órbitas binárias, ainda há cores quentes na dança das estrelas frias, espectros de emissão entre as lânguidas asias do meu excessivo critério. Me cativo de ter cativeiros e sumo da luz de fundo que anisotropicamente alucinam os estudos desses físicos teóricos surdos. Acelero o tórax para despressurisar a busca, alivio a interna aflição com algum suor de bicicletas rápidas e pulo mais alto que uma pulga d’água para caber no enterro dos meu últimos dilemas. Para deixar de transformar desejos em problemas, e me sobrar deitada olhando para o universo, amolecer os dentes da vaidade. Escorregar sobre as dobras do espaço-tempo. Soprar um pensamento livre. E partir do lugar onde as confusões predominam, para habitar os nervos que se recombinam na leve busca de um sonho. Uma estrada. Muitos passos para se dar. Uma vida.

23 de maio de 2011

Comunicações

As instalações de arame não se puseram sobre o gramado de propósito, e os lenços que se materializavam a medida que a luz saía da lâmpada também não eram por acaso. Ali o tempo era mais lento porque não se via tudo no mesmo instante que acontecia, levava dois ou três minutos para eu poder ver seus gestos e vice versa. Desta forma, ou agíamos muito lentamente, ou nos apressávamos em dizer ao máximo tudo, sem nunca nos entender de fato. Como num relance inútil que o acaso lhe profere. E não é permitido gemer, reclamar ou enraivecer. Eu me esquivei das tuas mensagens, parti em direção a instalação, você não pôde ver o momento, mas eu senti exatamente a tomada de decisão partir de dentro do estômago e cair sobre as bordas da minha bacia. Macia era o que eu era. Sem ninguém em mim, estipulei que caminhos poderia percorrer por dentro, e pelo fêmur me subia um vento cortante. Pé ante pé. Corro porque corro. Os arames não se contorciam mas os véus inundam a minha vista agora embaçada. Tomada pelas cores de pele, como se todas as pessoas do mundo tivessem raspado suas peles e doado para mim. Dentro da ópera de arame, não era possível nem sentir fome, os músculos relaxaram todos sem hesitar, e as pernas flutuavam nítidas sob o meu pescoço, não se fazia qualquer esforço, somente a sensação plena de não necessitar de ti. E não ter ninguém em mim.

15 de maio de 2011

Parque das Imagens - Clipe

O que surgiu de uma experiência, que gerou uma foto, que gerou um conto, que gerou uma música, que gerou uma harmonia, um arranjo, e agora tem banda: