23 de maio de 2011

Comunicações

As instalações de arame não se puseram sobre o gramado de propósito, e os lenços que se materializavam a medida que a luz saía da lâmpada também não eram por acaso. Ali o tempo era mais lento porque não se via tudo no mesmo instante que acontecia, levava dois ou três minutos para eu poder ver seus gestos e vice versa. Desta forma, ou agíamos muito lentamente, ou nos apressávamos em dizer ao máximo tudo, sem nunca nos entender de fato. Como num relance inútil que o acaso lhe profere. E não é permitido gemer, reclamar ou enraivecer. Eu me esquivei das tuas mensagens, parti em direção a instalação, você não pôde ver o momento, mas eu senti exatamente a tomada de decisão partir de dentro do estômago e cair sobre as bordas da minha bacia. Macia era o que eu era. Sem ninguém em mim, estipulei que caminhos poderia percorrer por dentro, e pelo fêmur me subia um vento cortante. Pé ante pé. Corro porque corro. Os arames não se contorciam mas os véus inundam a minha vista agora embaçada. Tomada pelas cores de pele, como se todas as pessoas do mundo tivessem raspado suas peles e doado para mim. Dentro da ópera de arame, não era possível nem sentir fome, os músculos relaxaram todos sem hesitar, e as pernas flutuavam nítidas sob o meu pescoço, não se fazia qualquer esforço, somente a sensação plena de não necessitar de ti. E não ter ninguém em mim.

15 de maio de 2011

Parque das Imagens - Clipe

O que surgiu de uma experiência, que gerou uma foto, que gerou um conto, que gerou uma música, que gerou uma harmonia, um arranjo, e agora tem banda:



29 de abril de 2011

Afônico

Muda,
me usa para descaber no seu peso,
iluda a lembrança que te come os pêlos,
Ambivalência nos pólos da alma.

Inunda essa casa toda, chora
sobre o meu colo, de que vale teu solo
se não consegues destemer a solidão aflita.

Clareia o olhar, abre nossos cubos de tédio
seja apenas médio, nada acima nada abaixo,
conduza-se pelo mesmo penhasco
sem titubear as pernas.
Sem apertar o passo,
Mantendo a ilesa graça
O sorriso místico
e aqueles segredos inabitados.

Se teu amor me vale,
acredito ser o meu desleixo a causa
dessa enorme água brotando sob os pés da cama.
O teto que desprende
é a força do que não me engana,
Sólido desconforto
permeando as várzeas
dos encontros.
Afinal,
é este o ponto.


23 de abril de 2011

Equilíbrio

Delícia de fome, me conformo com os pedaços de comida, água e saliva. A boca digere, o esôfago digere, digere o estômago, enquanto meus pensamentos passeiam pelos arcos da lapa até a ponta mais sutil do Arpoador. Ali é onde o sol se empenha em brilhar e a terra em girar pela inércia gigante desse sistema. Comportada pelos deveres, no entanto vejo a busca latente cada vez mais eminente e viva, e os resultados piscam pela tela dos acontecimentos. Primeiro uma foto, depois, um beijo, um desejo, os líquidos ainda borbulham sob o externo e meus olhos arregalam. Açúcar, sal, cafeína, glicose, hormônio, agrotóxico. Fossa dos desejos a me alimentar, combustível dos triglicerídeos, desconserto natural. Assim que arregalo, os músculos atiçados querem esticar contorcer desintegrar sobre a ação de seus próprios ácidos. Dor. Remédio. Retorno a ponta da cama, e sentada escrevo, não mais reflito sobre o dia, sobre o que deixei de fazer, presumo o sentimento que ainda não me acendeu no bulbo do cérebro. Descanso pelo ócio que tanto me quer alçar. Inércia dos cabelos oleosos e quebradiços. No caco mais ligeiro de mim, me varro para chegar na pá da consciência, olho pra sua carinha de noiva e a beijo na testa. De novo um barulho do corpo um grito no ínfimo do físico mudo e ativo. Vomitei. Estou viva. Pronto, saiu. Agora sim. Volto para a corda bamba do tempo, e equilibro.

9 de abril de 2011

...criando bichos...

É mesmo esse som que soa do corpo o que matém firme a vontade de luta, de permanecimento em cada barreira que se salta, cada beijo que se assalta, pelo ilusionismo das conversas e do cotidiano nosso. Me banha o abrir-se, jogar-se da janela só pra sentir a gravidade das coisas. Me inunda esse constante acreditar, pois mesmo que a mentira prevaleça, ainda há algo de sincero através dos olhares tênues do palavreado humano. Minha boca abre e fecha sob a ação involuntária de entender, flashes de raciocíonio lógico a conduzir as futuras palavras dessa leve história. Não, eu não sou algo de pura sinceridade, nem a leveza de todos os tempos habita a minha solidez. Porém, o feto que se multiplica dentro do útero, é futuro de gente. É carniça de alma, é um banhar-se ligeiro pelos líquidos viscosos da mucosa. Fomos todos esse ser que se alimenta invariavelmente. Fomos todos um pouco dementes através dos instintos milimétricos da vida. Mas sem isso não existiríamos, não vivenciaríamos os inóbvios conflitos, mesmo sendo eles comuns e inexprimíveis. Ainda sobre o teto da casa, deito. Admiro a imensidão das estrelas, o gigante universo implorando pelo nosso sangue, nossa excêntrica disponibilidade. Assim, vou dispersando o que me aflinge, regenero os versos, titubeio uma nova prosa. Morro nas preguiças dos sonhos. Sim, sou o lodo das pedras, a água com larvas de mosca, sou a sujeira da calçada sorrindo para o próximo gari que me varrerá até os confins do imundo, me mostrando a realidade e os fatos. A possibilidade do incompreensível. De qualquer forma, é o detalhe inútil aquilo que matém visível o defeito que se quer esconder, como etiqueta de roupa falsificada. Como mulher mal amada. Ah, Esses sons que me elevam o peito, que satisfazem o corpo, me transformam nesse fulminante ser reflexivo. E, por fim, acabam.

22 de fevereiro de 2011

Genesis

Dancei com as luzes
e me fundi ao mundo
Pois a minha matéria
virou átomo
e meu interior
se tornou profundo.
Pelas impurezas da humanidade,
subverti o escuro dos olhos
manipulei a face perplexa
para que alguma atitude
despontasse pelas pontas
dos pés.
Por fim,
respirei as moléculas de vida
e por alguns segundos,
extasiada que estive,
conectei meus declives
e escoei
pelos caldos quentes das relações humanas.

30 de janeiro de 2011

O menino Sono

E outra vez bateram sinos que despejavam uma lua cheia de água pelos pés do menino que antes não, mas agora sim, se sentia presente no presente do mundo. O menino sono, após longos bocejos, sobe na cama e grita: “Pai!”, enquanto bate as pernas para cima e para baixo. Encanta quem o vê falar, assim tão displicente, a palavra mais mágica dentre todas as outras no ouvido de um homem. Despertou por dentro da criança a fala, e por isso, tudo que vê é gravado pela memorinha recém criada, cheia de espaços vazios prontos na intenção-infância de serem preenchidos; deste modo, ganharia o resto do mundo.

Uma luz sai de dentro dele, corta a ponta de sua cabeça, agita a fala, ele grita, mexe a língua até bater no dente. Daí (!), um pingo de consciência e inteligência cai sobre o seu nariz enquanto ele reage a ação de não mais ser pura imagem: animada, real, e objetiva. Agora ele tem voz para dizer sua opinião, aceitar com sim, contestar com não. A gota no nariz escorre, corre para a boca onde ele lambe degusta e aguça cada vez que chora. Chora de impaciência pelas palavras ausentes de prática. "Acalma-te filho."

Pena não lembrar desse momento, pior que nem uma lembrancinha de como me sentia. Nasci e não lembro, e se nos sonhos não recordamos o porquê de acabar ali. Também devo sonhar de olhos abertos

na consciência de um gigante,

tolo e fascinado por histórias de povos contraditórios

desconexos e intrinsecamente vibrantes.

Oscilo e navego no meio das dobras de seu cérebro.

Imagina (!) que o Rio de Janeiro é só uma grande imensa fantasia,

mas são tantos detalhes dentro de um só gigante! *Talvez por isso gigante!*