25 de novembro de 2010

Te queimas por dentro?


Não é o tempo que se desconectou em chamas. É o fingimento morando em cada um que engana. Ensinam o que é humanidade, o que é igualdade, o que é amor. Mas ensinam de maneira hipócrita, falam e não fazem exemplo. Não foi vivenciado por dentro.


Parece que o ar sai da boca só pra fazer pequenas turbulências do lado de fora, enquanto por dentro fica ausência. Carência que vira medo, que vira raiva e sai em forma de rajada de ferro. É que ensinam mas depois esquecem, e seus filhos viram leitores de preces, palavras da boca pra fora. Repetem mecanicamente, soltam no ar. Recuam os olhos e escurecem.

21 de novembro de 2010

A História do Homem que ouve Mozart e da Moça do lado que Escuta o Homem


É que a natureza corta o ar das coisas, e basta deixá-la seguir seu rumo randômico no momento em que brotam ambientes no espaço. Uma tensão alta tece na ponta das cabeças até que todas se grudem numa respiração conjunta dos 40 corpos presentes. Basta rir-se ardente do vácuo que puxa pela avenida dessa cidade, porque se ninguém te espia ninguém te cala. E aí, quando o mundo abaixar e encaixar por detrás das sobrancelhas, contorce, rola, e afoga o instante de vida primeira. O que desmorona por fora embaça o olhar de dentro, conexão do tempo que fulge nas corolas molhadas pelos relógios de água, e que abastece o mar de impulsos curtos instantâneos e intensos.


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Depois de uma Peça que urge próximo ao arcos da lapa.

Vale a pena ver. E absorver-se de algo realmente Humano.


http://espacocenico.wordpress.com/2010/10/28/a-historia-do-homem-que-ouve-mozart-e-da-moca-do-lado-que-escuta-o-homem/



4 de novembro de 2010

Eletroalma

Contribuindo para essa consistência,

é quando o resto se desfaz em essência.

A cadência reverberada da carga

agita o canto da alma

numa superfície equipotencial,

induzindo o campo externo

a ser diferente do ideal.


Porém, o que há por dentro

n u n c a s e a b a l a,

a não ser que cavem

e ali instalem outra fonte.


Fonte pulsante.


Carrega consigo

o eletromagnetismo

desse instante.

2 de novembro de 2010

Fios Cruzados

Curto circuito enquanto tecia as falas dos últimos sentimentos, por ele. Disfunção dos vértices do espaço-tempo, a curva de luz insistia em abrir caminho pra dentro, distante ofuscava a cabeça aguda do moleque de rua. Ele andava esguio e torto para o lado esquerdo, girava os dois braços ao mesmo tempo quando sentia medo, abria a boca e apareciam dentes fortes de um vampiro escravo. Um desespero no menino alado.

Enquanto isso eu abria os cadernos, apagava os vestígios do antigo amor-feto, balbuciava as conversas de cabeceiras virtuais, me condenava incapaz. O menino era tão torto, que sua tortura me fazia doer o dorso, curvei-me para a direita enquanto o observava e, por sua vez, o caderno apoiado na janela escorregou, foi parar lá no outro lado do terreno em cima do muro. A quina do meu grito virou um canto arredondado, era bocejo de preguiça por aquele descuido que veio do menino alado. Talvez buscar.

Talvez para sempre ficar em cima, no meio, sem atitude e perplexa como sempre foi, antes. E encarar a imagem como um desafio para meus próprios erros era tolo, infantil. A rua já não tinha o menino. A chuva fina começava a cair. Os novelos de lã estavam inundando a sala com suas mil cores e linhas. Era tempo de solidão em meio a uma concentração rala, e os fios de novelos voltavam a se unir numa sensação tricô, positivo com positivo até o fim do dia.

25 de outubro de 2010

:::diluindo:::

Sumiu do mundo das palavras e desencadeou um sono profundo dentro do meu olhar. Visões periféricas se projetaram nas faces de dentro do meu crânio. Uma projeção demais imperfeita que falava o que eu queria ouvir, brincava de ser a parte de mim vazia de ti. Sou eu que controlo esse filme. Esses impulsos feitos de massa cinza e molhada carregam as necessidades impressas no centro da vida.

Desapareceu do mundo das idéias e virou matéria escura pintada pelas paredes da amargura. Veste terno cinza claro e desce pela escada de emergência, és pura ausência dentro de um corpo velho. Vou pra longe em desespero. Não nego que fiz de ti uma mina sem dinheiro, agora sou seca. Murcha. E canto firme nos bailes de corpo inteiro. Veja como posso ser forte, veja como posso ser só.

11 de outubro de 2010

A RETA

A linha reta entre um olho e outro é feita de tensão ressonante,
batimento de sensação cardíaca conflitante
e simultaneamente consoladora.


Console-se através da ponte firme
nesta transmissão volátil.
A cada acaso, o contato
entre a unha e a mão,
a ponta dos dedos e o chão
é um disforme sorriso.
A cadência arrítimica dos cílios
empurra uma respiração curta
até o ápice,
desnudando tua fingida face.
Amparo sólido e solo
encosta leve sobre o meu colo,
acaricia sem deixar tocar
e dispersa sem dialogar.
O único desperdício desse vício
é implantar a desculpa no receio
e viver a alimentar
as superfícies instáveis
do nosso meio.


6 de outubro de 2010

OZ

Cansada de me esquivar dos apegos

desses queridos e dóceis

meninos do vento.


Suas vorazes almas sopradas e repentinas

relutam em me carregar,

em arrancar pedaços.


Ágil, esquivo-me, enfraqueço, canso.



Assim, quando for me chamar de novo. Os olhos atentos buscam o piscar. As luzes da telinha. O nome escrito nela. A respiração presa. As janelas vão se abrindo e as paredes vão sendo arrancadas. Sobra do quarto o quarto. A cama ainda ilesa dorme sobre o chão que gira. Turbilhão de imagens. Grossa areia atinge o teto que se vai e despedaça. Sobra do quarto o quarto. Segura na cama e dorme! Aquela laje flutuante.



Um furacão entorpecente.

O organismo.


Sobra do quarto

o que havia de mim.